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Blog EntryApr 7, '08 2:01 PM
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Blog EntryMar 20, '08 9:13 AM
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Pessoal, texto novo no link:

http://flordelaranja.blogspot.com/

 

Beijo


Blog EntryMar 12, '08 12:11 PM
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Pessoal, estou publicando num blog agora. Mas toda vez que escrever um texto novo, lanço o link aqui, tá?

:)

http://flordelaranja.blogspot.com/2008/03/cenografia-distncia.html


Bons rapazes ainda há, ao contrário do que reza a lenda urbana pessimista de nossos tempos. O que está em falta, de fato, é o critério. Esse sim, se estivesse à venda, já teria esgotado há muito. Os pés são a todo instante trocados pelas mãos e as chances de ficar em silêncio, violentamente desperdiçadas. Diálogos deprimentes costumam rondar aquelas horas constrangedoras que se seguem ao sexo casual, geralmente prematuro e não muito gostoso, diga-se de passagem. Um amigo que não direi o nome me contou umas histórias impressionantemente desesperadoras. Pra começar, cabe ressaltar que esse amigo é pitéu, além de talentoso e carinhoso, atributos que o colocam no topo da lista de muitas meninas. Algumas até conseguem dar pra ele. Porém, poucas deixam marcas para além de unhadinhas frívolas. Poucas foi gentileza minha. Nenhuma conseguiu deixar qualquer marca que valesse a lembrança, pra ser mais precisa e menos benevolente (que não estou aqui pra passar a mão na cabeça de mulher que acha que um par de peitos durinhos e uma bucetinha molhada dão conta do recado de ser algo além de uma boneca inflável com pinta de intelectual). Nenhuma, apesar da evolução do pensamento em torno da causa feminina, conseguiu fazer o serviço completo, que na minha época era chamado de barba cabelo e bigode. Não conseguiram e não conseguirão, enquanto se fiarem na encenação e na pseudo-putaria. E, principalmente, enquanto estiverem mergulhadas nas profundezas da falta de assunto.

 

Agora vamos aos fatos:

 

. Capítulo Primeiro: Da hidratação

 

-Tem água na sua casa?

-Sim, claro.

-Você pegaria pra mim? Fico sem jeito de abrir sua geladeira...

 

Depois de abrir as pernas e deixar a mangueira entrar, esse papo de não abrir a geladeira soa como uma anti-metáfora. Algo que transita entre os dois pesos e as duas medidas.

 

Dica prática: Parta sempre do pressuposto de que na casa das pessoas tem água potável.

 

. Capítulo Segundo: Do transporte.

 

-Você tem telefone de alguma companhia de táxi?

-Sim, claro.

-Teria como ligar pra mim?

-Tem alguns números presos na geladeira.

-Ai, pega pra mim? Fico sem jeito de entrar na sua cozinha...

 

Mais uma vez a falta de jeito aparecendo como fator determinante.

 

Dica prática: Ande com telefones de companhias de táxi no celular e pare com esse charminho de artista em fim de carreira.

 

 

Capítulo Terceiro: Do preservativo

 

-Você tem camisinha, né?

-Sim, claro.

-Poderia colocá-la?

-Se você esperar meu pau terminar de ficar duro...

 

Uma mulher que não conhece o grau de paudurescência necessário para a inserção da camisinha é capaz de acreditar que beijo na boca engravida.

 

Dica prática: Pau duro não tem esse nome à toa. Encoste e veja por você mesma.

 

Capítulo Quarto: Da necessidade de provar que não se é burguesa.

 

-Você gosta de samba?

-Sim, claro.

-Já foi na feijoada da Portela?

-Nunca fui.

-Ai, como você faz isso com você mesmo? Lá é que é samba de raiz, samba de verdade.

 

Tá bem! Quero ver dançar com os bebuns suados de Madureira sem ficar com nojinho nem medo de ser estuprada.

 

Dica prática: Quando quiser tirar onda com o gatinho, esqueça o samba. É óbvio demais.

 

Haveria outros capítulos, mas só esses quatro já me irritaram o suficiente. Porque esse tipo de comportamento denigre anos e mais anos de luta pela liberação sexual e pelos direitos da mulher.

 

Portanto, se você é ingênua, não pose de puta. Porque ser puta não é pra qualquer uma. Seja você mesma, aí, quem sabe, até sua inexperiência vai ser charmosa.

 

Mas, por favor, de manhã, depois de um sexo meia-bomba, fique em silêncio.

 

Guarde seus comentários pras amigas da facu. Elas estão mais acostumadas com isso.

 

 


Blog EntryMar 2, '08 1:14 AM
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Lisandra anda meio cheinha e resolveu voltar a praticar esportes. Começou com as caminhadas matinais, que lhe fazem muito bem, pois a deixam mais bem disposta para encarar o tranco do trabalho, mas ainda lhe faltava algo. Foi quando encontrou Alícia, sua amiga de escola, que sempre foi aquele tipo meio sem tônus, quase flácida. Pois aquela Alicia tinha ficado pra trás, dando lugar a uma deusa grega. Lisandra quase não a reconheceu na rua. Após o estranhamento inicial, travou-se um desabafo frenético, quase coisa de gente bipolar:

 

-Poxa, mas você está ótima! Nem te reconheci...

-É, né? Nem parece a velha Alicia! Quer saber meu segredo?

 

Lisandra, enlouquecendo por dentro, mas não querendo dar pinta de invejosa, finge que nem é com ela:

 

-Ah, querida, essas coisas não se contam....

-Contam, sim, besteira, quero mais é que todo mundo fique gostosa. Afinal, o que é meu tá guardado, né não?

-Isso é verdade, que bom que você pensa assim!

-Então, menina, tudo começou quando descobri que tinha uma hérnia na coluna lombar, queriam até me operar, olha que horror, logo eu, que só de entrar em hospital tenho taquicardia!

-Jesus...

-Pois é, fiz um exame bizonho, desses que te colocam dentro de um tubo, sabe? Olha, pra você ter uma idéia, tiveram que me dar bola preu parar quieta!

-Gente...

-É, isso é só o começo, tá com tempo?

-Tô.

-Ótimo. Daí passei por um monte de ortopedistas, que ficavam vendo meus exames e dizendo que a coisa estava preta e coisa e tal.

-Nossa...

-Pois é. Pra resumir, chegaram à conclusão de que eu tinha que fazer RPG, que era melhor que operar. Fiquei uns 3 meses nessa. Do RPG, me recomendaram aulas de alongamento e pilates. Foi aí que tudo começou a mudar na minha vida.

-Com o pilates?

-Sim, a coisa é impressionante! Vou te dar um exemplo: sabe quando a bunda começa a diminuir antes de cair de vez?

-Sei bem, isso está acontecendo comigo agora.

-Então, é exatamente essa a hora de começar o pilates! Veja bem, a bunda que já diminuiu, não tem mais jeito, paciência! Mas a indefectível, temida e lastimada queda definitiva é interrompida, ou pelo menos adiada por alguns anos, não é fantástico?

-Ah, Alicia, fala sério!

-Eu estou dizendo, acredite em mim, você sabe que eu nunca fui a mais gostosa da turma!

 

O silêncio que se seguiu foi a resposta mais contundente que Lisandra poderia ter dado à velha amiga de adolescência. Mas, realmente, essa história de fazer a nádega reagir à gravidade lhe interessava. E muito. Afinal de contas, estava começando a namorar um rapaz e ainda não tinha tido a coragem de ir à praia com ele por puro medo do mais chauvinista de todos os hábitos masculinos: o teste da areia.

 

-Prossiga.

-O lance é simples, tá com tempo mesmo?

-Estou.

-Vamos comigo agora lá na minha academia fazer uma aula experimental, que tal?

-Agora?

-Sim, te empresto uma bermuda, ando sempre com uma extra.

-Tá bem, vamos!

 

Lisandra até tinha compromissos bem importantes, mas resolveu desligar o celular e simular um imprevisto qualquer, pois entendeu aquele encontro com sua colega de ginásio como coisa do destino.

 

Nunca contou esse episódio a ninguém. Simplesmente matriculou-se na academia e, duas semanas depois, já estava indo com seu gatinho à praia num fim de tarde. É claro que não houve tempo hábil para o pilates se fazer agir, porque milagre é coisa mais difícil de acontecer.

 

Mas pelo menos a gravidade parou de agir em sua auto-estima.

 


Blog EntryFeb 25, '08 9:17 PM
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E por que haverias de querer minha alma

Na tua cama?

Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas

Obscenas, porque era assim que gostávamos.

Mas não menti gozo prazer lascívia

Nem omiti que a alma está além, buscando

Aquele Outro. E te repito: por que haverias

De querer minha alma na tua cama?

Jubila-te da memória de coitos e de acertos.

Ou tenta-me de novo. Obriga-me.

 


Blog EntryFeb 17, '08 7:15 PM
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-E aí, cara, beleza?

-Beleza.

-Como é que tá essa força?

-Tudo tranqüilo e você?

-Também, tranqüilão.

-Legal, e a Laurinha, tá bem?

-Tá, sim, cada dia mais linda.

-Pô, tô com a maior saudade dela, vamos marcar de vocês irem lá em casa dia desses.

-Claro, vamos sim!

-E com a mãe dela, tá tudo certo?

-Tá sim, ontem mesmo dormi lá.

-Ah é?

-No sofá, cara!

-Tá certo, viva a pós-modernidade! Mas, vem cá, e a tal menina que você conheceu, como andam as coisas?

-Indo.

-É?

-Sim.

-Vocês têm se falado?

-Mais ou menos

-Existe isso? Se falar mais ou menos?

-Na verdade a gente não se fala desde o carnaval.

-Por quê?

-Eu liguei pra ela e ficamos de nos encontrar, mas não rolou...

-Por que não rolou? Vocês se desencontraram nos blocos?

-Não.

-Então o que foi?

-Eu fiquei de ligar de novo pra marcar aonde iríamos nos encontrar e não liguei.

-Pô, cara, mas do que você tem medo?

-Porra, mas que saco! Essa é a mesma pergunta que ela vive me fazendo!

-E você responde o que a ela?

-Eu nunca consegui responder.

-Mas pelo menos você sabe do que tem medo?

-Tenho medo de me fuder de novo, eu tenho uma filha, não sou um cara livre e desimpedido.

-Sim, mas ela sabe da Laurinha, né?

-Sabe e acha ótimo.

-Caralho, meu irmão, então qual é a porra do problema?

-É esse poder que eu sei que ela pode vir a exercer sobre mim, não sei se agüento esse tranco agora!

-Mas você não acha que ela tem o direito de saber disso?

-Não, porque daí fico fragilizado diante dela.

-Então, prefere simplesmente sumir, como um moleque?

-Eu não sou moleque, porra, eu tô confuso, assustado, sou um monstro por isso?

-Claro que não! Nem foi isso que eu quis dizer, desculpe!

-Eu simplesmente não consigo pegar o telefone e ligar pra ela. Ainda mais agora, depois de tanto tempo, capaz dela nem querer me atender...

-Se ela não quiser te atender, pronto, você vai saber que não tá rolando mais. Simples assim!

-Nem é tão simples como você fala...

-Cara, eu não te vejo tão inquieto há um bom tempo. Isso pode significar que essa moça toca você de alguma forma, né?

-Porra, só de ouvir a voz dela eu fico de pau duro!

-Então, bicho, vai deixar barato assim? Tá dando mole pro azar, meu camarada! Mulher maneira tem muita, mas mulher maneira que te deixa de pau duro só com a voz é mais raro, fala aí!

-Ô!

-Escuta teu cumpadre aqui, pega essa porra desse telefone e liga pra ela. Fala que você tá confuso, que tá com medo de se entregar. Mulher adora ouvir essas coisas, fica sensibilizada, promete até ser mais cuidadosa!

-Tá, mas e se eu me fuder de novo? Você vai bancar o uísque da dor de corno?

-Banco, sim, Black Label, ok?

-Tá bem, vou pensar com carinho nessa situação.

-Mas pensa rápido, senão outro gavião tem a mesma idéia antes de você. Aí, babou...

 

Depois da conversa, cada amigo foi pro seu lado, a refletir sobre as vicissitudes do coração. Não se sabe ao certo se o moço vai ligar pra moça que deixa ele de pau duro só com a voz.

 

Porque em terrenos como esse, toda a areia é movediça, e toda sintonia, delicada.

 

Certo mesmo, só o medo de amar.

Blog EntryFeb 4, '08 10:09 AM
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-Você viu o cara que botou a mulher na justiça porque ela quebrou o pau dele?

-Como assim? Pau não tem osso...

-Não tem, mas, ainda assim, pode dar uma espécie de destroncada...

-Ah tá! Pior é que pode mesmo...

-Chato, né?

-Super! Mas e aí? O cara ganhou?

-Nada, o juiz disse que ele sabia a situação na qual estava se metendo!

-Literalmente, né!
-Pois é, mas sabe que essa história me fez refletir a respeito do assunto?

-De fato, é uma bela temática.

-Fiquei pensando sobre as coisas que são ditas pelos homens quando eles estão de pau duro...

-Tipo o quê?

-Ah, coisas que nos fazem sentir espetaculares e únicas...

-Mas nós somos espetaculares e únicas, alguém duvida disso?

-A questão não é essa.

-Qual é então?

-Ah, fico às vezes achando que precisamos de um homem para validar nosso apreço por nós mesmas.

-Pára de show, vai! Você deve estar numa TPM violenta...

-Pior é que devo menstruar amanhã ou depois...

-Viu? Quase tudo na vida são os hormônios.

-Tá, mas e se tirarmos os hormônios? Não sobra nenhum sentimento?

-Querida, deixa esse papo de sentimento pra discutir com o seu terapeuta! Eu não tenho cacife pra isso!

-Se duvidar, nem ele tem!

-A questão é: independente do que aconteça entre quatro paredes, temos que estar cientes de que, nessas circunstâncias, o que se diz nem sempre é o que se diz e o que se ouve nem sempre são só palavras...

-Interessante isso...

-A cama nada mais é do que um território com múltiplos significados.

-Poxa, vou dormir pensando nisso!

-Faz isso não! Dorme pensando no Gianechinni, que é mais jogo!

 

Até tentou pensar no gostoso do Gianechinni antes de dormir, mas não deu. O buraco, definitivamente, era mais embaixo. Mais fundo que os hormônios. Mais perto, portanto, dos sentimentos e das emoções. Queria era descobrir os meandros do misterioso processo que começa na cama e termina nas profundezas de cada um de nós. Estava era tentando enxergar no escuro.  Mesmo sabendo que, molhada, toda mulher é uma cega.

 

E de pau duro, todo homem, um poeta.


Blog EntryJan 29, '08 5:59 AM
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Candice e Luelane se encontram uma vez por semana para ver filmes melífluos. Como são estudantes de cinema, preferem não sair por aí comentando que gostam de comédias românticas previsíveis, pra não gerar conflitos inflamados. Imagina se o povo da facu descobre que aquelas duas se enchem de rufles, ferrero rocher, itaipavas e cocas zero só pra ver o casal protagonista se beijando e indo pra cama por amor (porque em filmes como esses as trepadas casuais simplesmente não fazem parte do roteiro).

 

Porém, durante as sessões, a sinceridade come solta:

 

-Só não entendo esse pezinho que as mulheres levantam na hora do beijo, cara.

-Sabe que outro dia eu estava pensando nisso e cheguei à conclusão de que a gente às vezes levanta um pezinho nessas horas!

-A gente não, cara pálida! Eu nunca fiz isso, é muito fake!

-Pois eu de vez em quando pago um pezinho básico, em momentos de emoção extrema.

-Jura?

-Pior é que juro!

-Acho que a gente no fundo é masoquista de ver essas paradas.

-Por que?

-Ah, isso é coisa pra mulher que acredita que vai encontrar um carinha maneiro que quer algo além de uma noite e nada mais...

-Vai dizer que você perdeu toda a esperança?

-Se a esperança é a última que dorme, a minha tá na sonoterapia faz tempo...

-Ai, pára com isso, neguinha, tem muito cara interessante por aí

-De repente até tem, mas cansei de procurar.

-Cansou nada! E aquele rapaz que você conheceu na festinha do Odeon?

-Pegou meu telefone e ligou dizendo que ia me ligar de novo.

-E?

-E nada, né?

-Mas por que ligou então?

-Eu vou lá saber?

-Pode ter acontecido alguma coisa...

-Ah, com certeza! O cara liga dizendo que vai ligar de novo e morre atropelado por um caminhão de Cheetos! Gostei do roteiro, vamos filmar? Capaz de ser super premiado nos festivais da França!

-Não seja tão amarga, amiga!

-É, vamos esquecer esse papo! O que tiver de ser será, que nem em “Harry e Sally”, que eles se comem, ela fica amarradona, ele pira, ela se sente objeto e, só depois dela sumir, ele percebe o quanto a ama.

-Da última vez que eu sumi assim, quando voltei, já tinha outra na situação...

-Acho que tá na hora de ir pra rua, gata, parar com essa história de filme, que isso não tá levando a gente a nada.

-É, cinema é o maior zero a zero!

 

E assim, desiludidas e empanzinadas, as amigas foram pra night e, como de hábito, nada encontraram que valesse a pena. Voltando pra casa, já de manhã, não resistiram e passaram na locadora. Pegaram “O sétimo selo”, para se sentirem densas, porque a porra da pós-modernidade já tinha cansado suas belezas.

 

E porque a inveja de suas avós, que tinham o mesmo homem a vida toda a comer-lhes o rabo, era infinita.


Blog EntryDec 28, '07 9:35 AM
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Querido Marcos Frango,

Desde que soube que nunca mais ouviria nenhum comentário sarcástico vindo de sua boca, o mundo parece que perdeu um pouco da graça. É claro que os dias bonitos serão sempre bonitos, que a cerveja gelada permanecerá dando alento às almas trôpegas e que uma boa dose de sexo selvagem continuará aliviando as dores na coluna de 90% da humanidade. Ainda assim, mesmo que esteja tomando uma gelada num puta dia de sol, ou esteja fudendo como uma golfinha depravada, sempre que tocar “Paixão Antiga” do Tim Maia chorarei por ti, meu amigo, não só por não ter tido a coragem de ir ao seu enterro, nem por não ter te mostrado meus filmes, mas, principalmente, por não ter te agradecido por tudo que você me ensinou ao longo dos anos de UERJ. Mas, porra, como é que alguém podia adivinhar que uma merda desse tamanho ia acontecer? Eu pensava que ia te encontrar no carnaval, no bloco que o Érick é mestre de bateria, acompanhado da tua mulher e da tua filhinha, toda fantasiada de fada. Lembra quando você conheceu a Mônica e imediatamente me tomou como sua confidente? Ligava pra contar a evolução dos fatos e eu, muito orgulhosa do meu amigo, te dava conselhos que, de tão óbvios, deviam ter sido ouvidos por mim mesma, a fim de ter dado menos cabeçadas de encontro à parede. Você nunca soube o que era isso. Conheceu sua alma gêmea e foi preciso como um artilheiro em decisão de campeonato. Por ser assim, tão irritantemente focado, de vez em quando dizia que eu era uma pessoa muito teórica (coisa que me irritava naquela época e que agora soaria como um blues dos irmãos Gershwin). Por ser assim, tão absurdamente íntegro, às vezes me assoberbava com tanta coerência. O fato é que, de todos os meninos com quem andava (sim, porque eu era a única garota no meio de um bando de brilhantes intelectuais que me servem de referência até hoje), você era um dos poucos que realmente absorvia as inquietações da artista, que, de fato, acabei me tornando. Outro dia, de tanta saudade, sonhei contigo. Pra variar, você tinha que me dar aquela zoada básica:

 

-Poli, quanto tempo! Como vai essa vida de cineasta?

-Vai indo, mó ralação, não tenho horário pra nada, garantia de porra nenhuma!

-Tá reclamando de quê? Queria tá dando aula em escola?

-Claro que não, não nasci pra isso!

-Mas teria dado uma boa professora! Agora me diz uma coisa, e aquele seu orientador da UFF, comeu?

-Nossa, a gente não se vê há muito tempo mesmo. Aquele cara era viado, acredita?

-Acredito! Vindo de você, qualquer coisa pode ser verdade!

-Pára de me zoar, caralho, que eu tô com mó saudade!

-Eu também! Aliás, ando sumido mesmo, com saudade de todo mundo.

-Você faz muita falta!

-Eu sei! Mas não acabou não!

-Ué, pensei que você tinha estourado seu tempo regulamentar... 

-Esquenta não, vamos todos nos ver na prorrogação.

-Mas você tá bem?

-Claro que tô! Olha, querida, o papo tá bom, mas tá na minha hora! Vê se começa a fazer uns filmes sobre futebol!

-Vou pensar no seu caso!

-Mas antes tem que aprender a identificar um impedimento!

-Engraçadinho...

 

Ao acordar, cheguei a sentir o cheiro da esperança, como quando a gente é criança e pede bicicleta pra Papai Noel. Fiquei um tempo tentando voltar a dormir pra continuar nossa conversa. Mesmo agora, depois de tanto tempo, ainda poderia identificar o timbre de sua voz, terna sem deixar de ser severa, suave sem deixar de ser firme. Se sua voz pertencesse ao reino dos alimentos, seria tipo aquele molho acridoce, que tem no chinês. Mas já que seu timbre não é mais possível, ficamos por aqui, na árdua tarefa de medir o tamanho do buraco que você deixou. A sensação é a de que nunca conseguiremos precisar a magnitude dessa profundidade. É sempre assim com os grandes homens. Mas a herança é tão profunda quanto a lacuna. Disso você pode ter certeza.

 

A saudade é grande, meu querido. E o prazer da convivência, nem preciso dizer, foi imenso.

Olha pela gente aí!

Beijo grande,

Poliana.

 

PS: Zânia, Vitor e Carlão tiveram seus rebentos há pouco, mas ainda não conheci a gurizada. Só por foto.


Blog EntryDec 16, '07 1:20 PM
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Depiladoras têm em comum o fato de lidarem com aquilo que, nós, meninas, assumindo ou não, temos de mais precioso: nossa flora vaginal. Coisa linda que mamãe passou tubos de hipoglós e que nós, com a vida adulta, passamos de tudo um pouco, na tentativa de achar o convexo que se encaixe perfeitamente em nossa côncava anatomia. Parece simples, mas nem sempre as coisas dão tão certo assim. Foi o caso dessa amiga minha, cujo nome foi trocado, para evitar identificações comprometedoras.

 

Francis é loira do pentelho preto e sempre depila cavada, pra eliminar atritos desnecessários. Costuma fazer visitas trimestrais àquela que tem a responsabilidade de prepará-la para fodas cheias de auto-confiança: Janine, sua personal pussy designer. Porém, lá chegando, soube da triste notícia de que a moça estava com dengue, impossibilitada de trabalhar por uns 10 dias. Como tinha compromissos intra-aeróbicos marcados para aquela noite, achou por bem aceitar ser atendida por uma substituta, não sem antes dar-lhe todas as especificações necessárias:

 

-Olha, querida, é cavada, mas, pelamordedeus, sem bigodinho de Hitler, hein?

 

O olhar condescendente de quem sabia muito bem o que estava fazendo fez com que Francis confiasse imediatamente em Estefânia, a substituta. Durante a sessão, como de hábito, surge toda a sorte de conversas para evitar o constrangimento natural de ter uma ser humana manipulando dolorosa e impiedosamente a tal preciosidade que mamãe encheu de hipoglós:

 

-Menina, você viu aquela moça da novela, que se pendura no mastro?

-Flávia Alessandra, né? A ex do Marcos Paulo.

-Essa mesmo. Outro dia vi uma entrevista dizendo que ela só tirou a roupa na novela porque já é uma atriz madura. Engraçado, né? O normal é o pessoal tirar a roupa primeiro e só depois ir pra novela. 

 

Francis, que é estudiosa de fenômenos midiáticos, empolgou-se com Estefânia e até se esqueceu da situação em que se encontrava. Terminado o serviço, antes de fazer buço, axila e sobrancelha, olha pra baixo e vê que o nazismo havia triunfado. Com ódio, lança chamas viperinas:

 

-Mas o que é isso, minha filha? Eu não falei que não era pra fazer bigodinho?

-Mas não tá bigodinho, não senhora, bigodinho é mais fino, ta só cavada normal.

-Normal? Você sabe que eu tenho um encontro hoje? Como vou me apresentar assim, descaracterizada?  

 

Depois de muito bradar e ameaçar chamar seu advogado, saiu de lá sem pagar o serviço. E, já que não havia jeito, resolveu adquirir artefatos para acompanhar o novo design. Assim, de chicotinho e algemas em punho, assumiu a linha extrema direita e até que se divertiu bastante.

 

Em seu íntimo, agradeceu Estefânia, por liberar um lado autoritário que ela mesma desconhecia.

 

Era o mínimo que se podia esperar quando a última coisa que se esperava tinha acabado de acontecer.

 


Blog EntryDec 11, '07 1:36 PM
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-Ele respondeu meu email.

-E aí? A raiva passou?

-Tá tudo certo em relação a isso.

-Que bom, amiga! Nada mais de culpa! Viu como era coisa da sua cabeça?

-É...

-É impressão minha ou você tá bolada?

-Na verdade tô um pouco chocada ainda com o teor das coisas que ele disse...

-Por que?

-Resumindo, pra não gastar minha beleza e nem desmanchar meu penteado, o mancebo disse que estava tudo bem, que eu poderia ligar pra ele e mandar email sempre que quisesse, que ele não estava chateado e que até poderíamos nos encontrar.

-Isso é legal, né? Vocês não estavam justamente combinando de se ver antes de rolar esse stress do acidente?

-Pois é, mas tá faltando o grand finale...

-Fala!

-Ele pediu pra que eu, por gentileza, evitasse o orkut, pois ele está enrolado com uma pessoa.

-Gente, que cara-de-pau!

-Ainda não terminou.

-Jesus...

-Ele disse que, caso isso fosse um impeditivo, ele entenderia.

-Que compreensivo...

-Caso não, eu poderia me sentir à vontade para procurá-lo.

-Gente, tô pretérita! Quer dizer que se você topasse, poderia dar umas reboladas no pau dele, desde que não deixasse nenhum recadinho no orkut, pra patroa não ver?

-Exatamente!

-Que precavido...

-Aff!!!!

-Amiga, na boa, esse cara tá pensando que é o Brad Pitt! Tomou prozac além da dose...

-O fato dele estar enrolado com outra é até normal, eu também não sou nenhuma santa. 

-Pois é, você também não deixa barato, quando resolve dar de titia feroz, ninguém segura!

-Só você pra me fazer rir numa hora dessas...

-E tem outro jeito?

-O pior pra mim foi essa coisa do orkut, me senti meio alcatra, sabe?

-Sei bem...

-Precisava ver, da última vez que nos falamos, era “lindinha” pra cá, “pensei em você a semana toda” pra lá...

-Posso imaginar como você tá se sentindo...

-Fiquei chocada não só por ele, não, mas pela mina também. Nesse ponto sou corporativista, não vou entrar numas sabendo que tem uma mulher sendo enganada. Porra, podia ser comigo!

-Aqui, não responde essa porra desse email não!

-Vou responder não, amiga, fica fria. Agora atingiu meus brios!

-Claro! Tá pensando o que? Que é a piroca mais sensacional do mundo?

 

O silêncio que se fez deu bandeira da anatomia do anti-herói em questão.

 

-Fala logo, como é?

-Parece um cogumelo.

-Cabe na boca?

-Sobra!

-Na espessura também?

-Aham...

-Ahhhhhhhh! Agora tudo se encaixa...

-Na verdade, não se encaixa, né, querida!

-Pensa assim, bela, agora pelo menos você vai poder falar de boca cheia!

 

Morrendo de rir da própria desgraça, as amigas ficaram a discutir as proporções dos membros dos rapazes que por elas passaram e chegaram à conclusão de que, se em terra de cego quem tem um olho é rei, em terra de bem dotado, quem tem caráter é digno de segredos de liquidificador: desses bem batidos, com ovos, à moda espanhola.

 


Blog EntryDec 9, '07 9:37 PM
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-Ele não vai te responder, esquece.

-Mas como assim?

-Não vai, não adianta, você pode mandar mais uns quinze emails e ele vai continuar te ignorando.

-Mas por que? Não seria mais fácil ele simplesmente me responder, nem que fosse com um: “Olha, eu tô ótimo, me recuperei do acidente, mas, sinceramente, quero que você se foda!”

-Você realmente ia gostar de ouvir isso?

-Sei lá, cara, talvez me sentisse menos culpada, menos escrota, menos qualquer porra! Nunca me senti tão impotente assim!

-Baby, é triste, mas vale a máxima de que pra tudo tem sempre uma primeira vez.

-Preferia ficar virgem nesse setor...

-Olha, eu bem que queria te dar um colinho, mas ando tão vazia de esperança e de sentido que nem sei o que te dizer, amiga.

 

A tristeza era tão negra que, sem que ninguém pedisse nada, um vinil do cartola começou a tocar no velho três em um da casa nova das meninas.

 

-Cartola é foda, né?

-Outro dia um amigo me disse que ele é o padroeiro de todos os que preferem sentir raiva à culpa. Achei bonito.

-É. Mas por que a culpa dói tanto?

-Porque é nossa responsabilidade, única e exclusivamente nossa.

-É.

-Porque é pessoal e intransferível.

-Como um cheque ao portador.

-Como um cheque ao portador.

-E se eu ligar pra ele?

-Lindinha, desiste.

-Ai, não fala lindinha, que ele me chamava assim...

-Belíssima, não tem nada que você possa fazer. Vida adulta é assim mesmo: irreversivelmente cruel.

-Pelo menos temos cerveja...

-Gelada!

-E tá chegando fevereiro...

-Viu? Nem tudo está perdido!

 

Continuaram ali, ouvindo Cartola até altas, e a esperança, cansada de tanto esperar, guardou-se pra quando o carnaval chegar.     


Blog EntryNov 19, '07 6:17 PM
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Anderson e Fernanda se conhecem há bastante tempo e fazem um monte de coisas juntos, na maior amizade. De umas festas pra cá, no entanto, provavelmente por conta dos hormônios, ele começou a achar natural friccionar seu corpo no dela na pista de dança. Já ela, por sua vez (provavelmente também por conta dos hormônios), curtiu essa coisa moderna de se esfregar no amigo.

 

Passadas umas seis festas, o paradoxo já tinha se estabelecido: Anderson continuava como sempre esteve, enquanto Fernanda jazia úmida em seu quarto a cada vez que se lembrava daquela animação toda. Como a situação exigia um terceiro olho, chamou uma amiga pra dar o veredicto:

 

-Já sei o que está acontecendo!

-Então me diga!

-Ele te acha cheirosa, admirável, gente fina, gostosa e se amarra na tua companhia, né?

-Acho que sim.

-Mas não tem vontade de te comer, filha, esquece!

-Será?

-Baby, veja as coisas como elas são de fato e não pela ótica da Cinderela, ok?

-Tá, mas acho estranho esse comportamento. Não vejo ele fazer isso com nenhuma outra amiga...

-Estranho é, sem dúvida! Senão uma garota tão bem comida como você não estaria assim, à flor da pele...

-Pois é, menina, que situação!

-Se ele quisesse, já teria rolado, bela.

-Às vezes fico achando que ele pode sentir medo de mim, me achar muita areia pro carrinho de mão dele. Sabe como é, mal ou bem, sou uma intelectual...

-Pode ser também, mas sei lá, homens costumam agir, mesmo estando apavorados. É a lei da selva!

 

Concordando em gênero, número e grau com a amiga, Fernanda sacou aquilo que já estava muito claro: o moço tinha um jeito peculiar de se expressar. E só. Sacou também que, de agora em diante, para manter sua amizade com ele, teria que partir para uma tomada delicada de atitudes. Sem perder a ternura, obviamente.

 

Porque alguns homens são como caminhões: demandam uma certa distância de segurança.


Blog EntryOct 28, '07 5:34 PM
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-Quem vai?

-O povo de sempre.

-Veridiana também?

-Claro, mô.

-...

-Vai começar de novo essa história? Quantas vezes tenho que te dizer que a Veridi é minha amiga de faculdade, que não tem mais nada a ver.

-Não precisa dizer nada, baby, eu vejo o jeito que você olha pra ela.

-Claro! A gente viveu muita coisa junto. Pra mim, ela é que nem o Jefferson. Do Jefferson você não tem ciúme, né?

-Lógico! Jeff não te deu chá de buceta durante três anos seguidos.

-Môzinho, eu te amo tanto, não gosto quando a gente discute por bobagem.

-Não é bobagem. Você sabe que eu sou uma mulher que relativiza as coisas. Li todas as feministas, aceito tudo, da bebedeira ao playstation semanal na casa do Romano. Sou praticamente uma companheira perfeita. Mas a Veridiana eu não aturo! Ela nem disfarça! Chega sempre lânguida, decotada e solteira, te contando mil novidades do mundo do cinema. Caguei que ela é cineasta! Caguei pro cinema nacional!

-A sua sorte é que você fica muito tesudinha quando tá com raiva...

-Não muda de assunto, cacete!

 

Passados trinta minutos de infrutífera discussão, o pragmatismo masculino falou mais alto:

 

-Tá, diante dessa situação, o que você quer que eu faça?

-Nada.

-Como nada?

-O que você quer que eu te peça? Pra você não falar com ela nunca mais? Logo ela, sua amiga mais famosa, mais talentosa, mais interessante?

-Se você me pedir, eu paro.

-Não vou te pedir isso, não seria justo!

-Também acho, mas se for pra gente parar de discutir, eu até topo, chamo ela pruma conversa e explico tudo. Que tal?

-Aí quem sai de piranha histérica insegura sou eu aqui, a mãe dos seus filhos, que atura seus podres, que fica com o mel e a ferida! Não, obrigada pela oferta! Prefiro continuar fingindo que me interesso pelos filmes que ela faz.

-Os filmes dela são bons, vai!

-Ótimos! Se a pessoa estiver com insônia então...

 

Para amansar aquela tsunami, só mesmo uma comparação brutal e definitiva:

 

-Olha, mô, eu jurei pra mim mesmo que nunca cometeria a indelicadeza de falar da intimidade das minhas ex-namoradas com ninguém, mas a verdade é que a gente não rendia muito na cama. Pra você ter uma idéia, nem o boquete dela era gostoso, eu ficava tenso com aquele aparelho dentário, com medo dela me ralar inteiro, de inutilizar meu pau pra todo o sempre.

-E você quer que eu acredite nisso?

-Você acredita se quiser, mas nunca tinha entendido o que era uma buceta esplêndida até te conhecer.

-Buceta esplêndida?

-Quem tem uma personal fucker como você não quer saber do passado.

-Sei...

-É claro que a Veridi é bonita, é gostosa. Me ensinou o que era marxismo e mais valia. Com ela eu trepei pela primeira vez numa barraca de camping.

-Que romântico...

-Naquela época até foi, tudo era novidade.

-Posso imaginar...

-Veridiana tem gosto de juventude. Você tem gosto de vida inteira, entendeu, minha peituda?

 

A peituda fingiu que não entendeu, pra se fazer de chateada. Tava era valorizando seu passe. Mas, lá no fundo, sua alma se aquietara.

 

Porque, por mais que o mundo gire cada vez mais rápido, toda mulher quer ter gosto de vida inteira.

 

 


Blog EntrySep 3, '07 11:39 PM
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No momento em que Germana roubou o namorado de Veridiana não fazia idéia do que estava por vir. Passados apenas três meses, quando ainda colhia os louros da vitória e sentia-se a mais gostosa das ladras de namorados, recebeu o troco em moeda corrente: o moço teve o displante de trocá-la por outra.

 

Dia desses, numa pré-estréia para convidados vips, as ex-rivais acabaram se encontrando. A profusão de drinques as fez engatar numa conversa estranhamente íntima:

 

-Conta mais!

-Ah, ele parecia super bacana no começo.

-Jura?

-Juro, achava ele sensacional, ficava super insegura com a quantidade de mulheres em cima dele, me sentia ameaçadíssima. Afinal, não sou nenhuma musa do verão, né, minha cara!

 -Mas isso não quer dizer nada, eu sou o melhor exemplo: perdi 20 quilos, estou ótima, mas fui trocada do mesmo jeito que você!

-Hahahaha! Não adiantou nada tanto diet shake, né?

-Pois é.

-Tô indo pegar outro drinque. Quer também?

-Claro!

 

Passados quatro drinques e meia dúzia de confissões de gaveta, havia chegado a hora da verdade:

 

-Um pouco antes da gente terminar, eu já estava meio cansada das amigas dele, que sempre davam um jeito de aparecer sem avisar.

-Isso acontecia comigo também.

-Pois é, para evitar constrangimentos, passamos a dormir mais lá em casa.

-Boa solução.

-Mais ou menos.

-Por quê?

-Você vai achar que eu sou fresca...

-Fala, mulher!

-Bem, o fato é que numa dessas noites os pêlos do tornozelo dele grudaram na colcha de chenile que minha tia-avó me deu.

-É, ele solta pêlos como um gato angorá, mas e daí?

-O  tornozelo peludo é só a ponta do iceberg, nem queira saber...

 

Comovida pela lembrança da tia-avó amada, toma o nonagésimo gole de bebida liberada e, quase por osmose, cospe toda a verdade:

 

-Quando ele veio com esse papo de que tinha te conhecido e estava apaixonado, achei melhor deixar quieto e não dizer que já  estava com nojo daquele tornozelo peludo dele há algum tempo e que achava ótimo ele estar pondo fim na nossa situação.

-E eu achando que tinha roubado seu homem...

-Você ia se cansar dele, menina, vai por mim!

Às gargalhadas, as duas entenderam que o mancebo era um cordeiro defumado em pele de lobo da estepe e que só havia aparecido em suas vidas para fazer delas grandes amigas.

 

Perceberam tratar-se do clássico desequilíbrio contábil: era muita hora de mulher pra pouco minuto de homem.

 


Blog EntryJul 16, '07 5:54 PM
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Quando Glorinha era aspirante a atriz, adorava festejar Nelson Rodrigues:

 

- Ele abusava das bizarrices e não tinha medo do ridículo! Um gênio em estado puro!

 

Com o tempo, desistiu do teatro. Hoje faz estágio em um jornal e foi escolhida para cobrir a Festa Literária de Paraty. Assim que soube da novidade, reuniu as amigas e foram comemorar à moda carioca, aplaudindo o pôr-do-sol no Posto Nove. Sentia-se a mais competente das estagiárias e chegou a achar que aquelas palmas todas eram só para ela.

 

- Gente, não tô acreditando! Eu vou cobrir a FLIP logo no ano em que o homenageado é o Nelson. Assim que acabar esse baseado vou pra casa pensar na minha pauta.

 

O entusiasmo não era à toa. Ali estava sua grande chance, não só pelo tamanho do evento, mas, especialmente, pelo quarto com cama de casal que teria só para ela. Assim que desfez as malas, aprendeu a dividir seu tempo: de dia, pensava em perguntas brilhantes; à noite, arquitetava uma forma de não tomar café da manhã sozinha.

 

Logo nas primeiras perambulações noturnas, teve medo de virar estatística ortopédica, pois as pedras irregulares de Paraty ameaçavam até o mais estóico dos tornozelos. Movida por pura autopreservação, passou a olhar mais para o chão do que para os meninos, desestruturando drasticamente todo o planejamento feito em prol da paquera.

 

Decepcionada, entra no primeiro boteco e pede cachaça local. Só então repara no cartaz com uma das inúmeras frases lapidares do homenageado: “Só acredito em amor que chora”. Enquanto aquelas palavras reverberavam em sua bela cabecinha, notou do outro lado da rua um varão de queixo reto, olhar firme e andar levemente claudicante. Tratava-se na verdade de um belo coxo, que sabia fazer poesia, pirão de peixe e surpresas.

 

Pela primeira vez na vida Glorinha fez sexo sem burocracia e, inteiramente molhada, engoliu em seco todos os preconceitos criados no cativeiro de sua alma classe média bacaninha.

 

Acabada a festa, na segunda pela manhã, voltou para a redação. A vidinha tinha que continuar, era o único jeito.

 

Nas curvas da estrada, chorou de molhar o sutiã.

 

Agora sim tinha cacife para festejar Nelson Rodrigues.

 

 

 

 

 

 


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